Outro Mercado É Possível: Perspectivas do nordeste do Brasil

Outro Mercado É Possível: Perspectivas do nordeste do Brasil // Another Market is Possible; perspectives from Brazil’s northeast

Estou alegre!  Estou num país com um potencial enorme para o movimento pela economia solidaria e consumo responsável, porém, o Brasil ainda é um gigante adormecido.  Eu sinto em Recife (a cidade onde eu moro) um lugar especialmente posicionado e com possibilidades para liderar tal movimento. Estamos em um região onde moram mais que metade dos agricultores familiares (mais de 2 milhões!) e tantas pessoas têm familiaridade com a terra.  Até moradores das cidades conhecem o que é uma fazenda, além de saberem identificar arvores frutíferas e plantas medicinais. Também têm consciência de que as favelas das cidades estão superpovoadas em parte pelo êxodo rural brasileiro.

Dentro desse escopo de análise, fizemos uma palestra no dia 9 de setembro intitulada: “Comércio Sustentável e Consumo Consciente: Um Outro Mercado É Possível”  (inspirada na frase popular do Fórum Social Mundial: “Outro Mundo É Possível”). O evento fez parte do Dia do Administrador, onde estudantes da Faculdade Santa Helena escolheram as palestras que queriam assistir em vez de suas aulas normais.

Tenho conhecido algumas pessoas fantásticas aqui em Recife. Dentre os demais apresentadores, os meus favoritos foram: Eder Leão, nativo de Recife que coordena a rede de economia solidária na Universidade Federal do Pernambuco, e Omar Rocha, um antropólogo e ativista que recente obteve verba da Prefeitura de Recife para lançar a primeiro campanha de consumo consciente aqui no Recife, em 2009.

Aprendi muito com os apresentadores ontem.  É fascinante que o Brasil não tenha uma cultura ativa de direitos de consumo como nós temos nos Estados Unidos; algo que a gente não da o devido valor.  A partir da tendência recente de ‘pensar verde’, quando pensando em consumo responsável, pensamos na defesa que fez Ralph Nader para os cintos da segurança nos carros, ou como você decidiu qual máquina de lavar comprar a partir dos “Relatórios de Consumo” (Consumer Reports). Tudo isso vinha de um movimento de consumidores ativos e organizados nos Estados Unidos.

Além de defesa do consumidor, durante a palestra nós consideramos o repensar, ou desconstrução, e reconstrução das noções e atos de consumo.  Omar apresentou duas versões de consumismo que eu gostaria de compartilhar porque acho que nos ajuda de pensar sobre reconstruir idéias de ‘Consumo’ que são realmente efetivas e saudáveis.

CONSUMO CONSCIENTE: ” a capacidade de cada pessoa ou instituição pública ou privada, escolher e/ou, produzir serviços e produtos que contribuam, de forma ética e de fato, para a melhoria de vida de cada um,  da sociedade, e do ambiente” (Instituto Kairós).

Contudo, mais que ser um consumidor responsável, para contribuir para uma sustentabilidade de verdade, precisamos ter:

Consumo Crítico : “A desconstrução e a reconstrução de padrões e hábitos de consumo, impostos pelo sistema, criando novas e alternativas formas de consumo e produção que respeitem valores sociais, culturais e ambientais, utilizando o boicote e o anti consumo às Transnacionais Involutivas como instrumento na construção de outro mundo possível.”

O argumento é que cidadãos tem deixado de serem tratados como cidadãos,, com todos os direitos humanos (segurança, alimentação, água, etc), e são vistos como meros consumidores pelo estado e pelas empresas. Quantos votos podemos comprar, quantos alimentos processados quimicamente podemos vender.  É nossa responsabilidade, como cidadãos do mundo, recuperar a palavra ‘consumidor’ e o espaço que essa palavra ocupa.

Um exemplo comovente:

Enquanto 1,7 bilhões de pessoas podem ser enquadradas na “classe global de consumidores” (pessoas que tem acesso a televisores, internet e celulares), 2,8 bilhões sobrevivem com menos de dois dólares por dia e mais de um bilhão de pessoas não tem acesso à água potável.

Fonte – Almanaque Brasil SócioAmbiental 2008

Existem mais cidadãos nesse mundo que não têm acesso ao água limpa e recursos adequados para comer e vestir do que pessoas que podem comprar produtos de luxo e podem tomar medidas para alimentos, água, e educação para o preço de comida para cachorros e produtos de beleza… é um absurdo.  Nossa realidades como seres humanos devem ser exatamente ao reverso.  Não é nossa responsabilidade de cuidar um ao outro primeiro? Uma lição do primário…

Não estou tentando de ser simplista; não é que a solução seria proibir sorvete de chocolate dos países ricos e usar o dinheiro para mandar alimentos aos outros países.  (Além disso, mandando milho subsidiado para países menos desenvolvidos tem sido tão prejudicial via a política de “Food Aid” dos Estados Unidos).  Mas a conceitualização tão articulada de Omar da realidade do comportamento do consumidor me parecia um retrato realista do que está atualmente acontecendo.

Eder e eu tivemos o papel de mostrar que “Outro Mundo É Possível.” Eder começou dando um visão geral de comércio internacional e das desigualdades (pode ler sobre isso aqui, www.maketradefair.com), e ele explicou o conceito de economia solidária- uma economia baseada na auto-gestão, cooperação, solidariedade, e ação econômica – onde o povo e a terra não estão sendo vistos como commodities, mas como pedaços da um ecossistema vivo, e que o formato básico de comércio ou troca pode apoiar a saúde atual de esse ecossistema… em vez de atuando em detrimento dele (Esta é minha interpretação)

Eu falei sobre a consolidação do sistema alimentar mundial e como isso esta criando muita pressão negativa para agriculturas familiares para produzir com novos padrões de segurança, beleza, e saúde, e horários de entrega restritos.  Isso eu descrevi como o tomate perfeito – você sabe, quando você está no supermercado procurando o tomate mais lindo do mundo… e quando você chega em casa e parte o tomate, não tem o cheiro de tomate, nem gosto.  Tem uma textura esponjosa.  E provavelmente esta cheia de agrotóxicos porque foi colhido contra a natureza no meio do inverno em um pais do norte.

… mas apesar de a variedade de desafios do mercado, eu tenho encontrado agricultores no interior do Brasil que estão criando suas próprias formas de acesso aos mercados por feiras agroecológicas e vendas direitas aos consumidores (ler mais aqui- here), e isso é a parte emocionante sobre esse movimento para um sistema de comércio que seja mais ético aqui no nordeste do Brasil.

Então, como é que os Recifenses estão posicionados para assumir a liderança dentro do movimento para um consumo consciente no Brasil?  Como um participante anotou, “Todos sabemos dessa realidade.  São nossos pais e avós que vêm do interior, agricultores familiares que moravam sem água no semi-árido, tiveram que migrar, abandonando suas terras porque a agricultura não deu para a família.” Recifenses são muito mais próximos da vida rural – das tradições e da realidades – que nós nos Estados Unidos.  É evidente na música popular- forró, maracatu, ou no consumo cotidiano de comidas tradicionais – tapioca, rapadura, ou cuscuz.

A maioria dos agriculturas familiares nos Estados Unidos foram forçados a abandonar sua terra no século 20 por tendências de mercado e demandas impossíveis de cumprir, muito perto dos desafios que agora estão enfrentando aqui no Brasil.  Mas Recife tem o potencial de atuar como um catalisador positivo na preservação dos agricultores familiares.  Pode aprender com a experiência dos Estados Unidos, os efeitos ruins para os agricultores de lá que quase desapareceram da terra.  Recifenses podem tomar iniciativa para apoiar a cultura de agricultura familiar.  E é fácil de fazer aqui!  Recifenses moram perto da terra do agricultor, e tem mais que 50 feiras agroecológicas que passam todas as semanas no estado, todo o ano (beneficiados por um clima e inovações que permitem acesso a água durante todo ano no semi-árido).  Além disso, os laços emocionais e acesso físico aos produtos produzidos de um jeito tradicional existe aqui, e é realístico encontrar os produtos agroecológicos conectados a economia solidária que estão vindo dos agricultores familiares.  É possível!

Pois, isso parece muita informação para uma postagem do blog – e foi MUITO por uma palestra introdutória sobre economia solidária e consumo responsável.  No final do evento, eu perguntei aos participantes sobre se comprometer com uma ação que eles podem tomar hoje para serem consumidores mais responsáveis.  E eles responderam:

Eu fiquei impressionada.  Falamos MUITO durante uma apresentação de 2.5 horas, e os participantes responderam com objetivos tangíveis, reforçando nosso tema central – Outro Mercado É Possível.

Pois, paro aqui por agora.  Peço por favor compartilharem suas perguntas e pensamentos aqui!  Vamos começar um diálogo!

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